TV Jaguar

Postado em 22/11/2019 às 07:40:00

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Morada-novense alimenta cães e gatos de rua há mais de 3 anos.

Morada-novense alimenta cães e gatos de rua há mais de 3 anos.

O barulho da bicicleta não chega a ser alto, mas quando se aproxima do local é suficiente para reunir cães e gatos de rua. Ansiosos, esperam a mulher negra descer da caloi violeta. Nas mãos dela encontra-se fartura: alimentos que amenizam a fome diária destes animais.

Todos os dias durante a semana, a moradora percorre ruas e pontos conhecidos da cidade com objetivo de ajudá-los. Alimenta-os com ração, restos de frango e comida caseira. Amigos e familiares contribuem com o que podem. Se algum animal está com ferimento, a mulher compra remédios. O mais utilizado é Violeta.

Fabíola dos Santos sai de casa às 16h; visita a Praça Maestro Coutinho (Praça do Balão), Posto de Saúde da Sede (na Avenida Manoel Castro) e calçadas da Rua Divino Espírito Santo. O percurso encerra nas dependências do departamento da Autarquia Municipal de Trânsito (AMT/Demutran) – Rua Aloísio Gonzaga de Lima. De lá, faz retorno a sua casa na Mâncio Rodrigues.

 

 São cerca de 20 km semanais na rotina da benfeitora.

Esse, aliás, é um título que poucos lhe empregam. “A maioria dos moradores não gostam quando alimento os bichos”, expressa, pontuando em seguida as vezes em que recebeu ofensas. “Já me xingaram, olharam torto e até insinuaram briga. Mas não ligo. Tem gente que reclama, outros; parabenizam”.

Das poucas pessoas que aplaudem a atitude de Fabíola, a vendedora Marcia Andréia comenta sorridente a boa vontade da cliente: “quando aparece aqui em frente ao posto os gatos correm até ela. Ela compra meus salgados e sanduíches para dar pra eles. Quem faz isso hoje em dia? Acho lindo”.

Outro que enxerga a ação com bons olhos é o pipoqueiro de 65 anos, Antônio Hermínio. Ele diz conhecer Fabíola “de passagem”. Sempre a vê frente as escolas e acha a “atitude da moça louvável”. Relata que a esposa também ama animais e se perde na lembrança de quando a companheira adotou uma gata. “É bonito. Quem dar de comer aos brutos ajuda e merece ser ajudado”, elogia.

Para uns, ato de generosidade, para outros; irresponsabilidade e falta de higiene. “Ela solta essas comidas aí e eles se acostumam. As ruas ficam lotadas desses bichos”, diz uma das clientes de uma lanchonete localizada abaixo das arquibancadas do Estádio Municipal Pedro Eymard - um dos locais que Fabíola costuma passar no horário da manhã em seu tempo livre.

Ração envenenada

De todos os encalços que enfrenta nesta rotina, um episódio em particular deixou Fabíola alarmada. Cerca de dez meses atrás, 2 kg de ração foram deixados próximo a sua residência. A irmã encontrou o pacote e estranhou o mau cheiro. “Whiskas tem cheiro forte, mas aquela ração estava com odor estranho”, conta Fabíola. Desconfiada, levou a ração a um pet shop. O proprietário do estabelecimento averiguou. A resposta confirmou suas suspeitas: a ração estava envenenada. “Há muita gente sem coração. Graças a Deus não dei a ração aos bichos”.

Essa má vontade dos moradores a atitude de Santos é constantemente demonstrada em rusgas diárias contra ela. Vizinhos cismam com os cães nas calçadas e sujeiras dos restos de comida deixados por eles. Dizem atrair moscas e outros animais.

Nenhuma das reclamações afeta Fabíola profundamente e nem todos os vizinhos odeiam sua causa. “Eu apoio muito essa atitude dela. Se pudesse a ajudaria mais”, diz Renato Coelho. O morador desconhece os atritos quase diários enfrentados pela vizinha amante de animais.

Superpopulação

Longe do controle de Fabíola, os cães sem lar espalhados pela cidade preocupam moradores e transeuntes. Na Rua Luís Saturnino Matos é comum encontrá-los nas primeiras horas do dia e fim de tarde. Funcionários de lojas e comércios reclamam do barulho e brigas entre os cachorros. A funcionária de uma clínica próxima preferiu comentar sem se identificar: “passam o dia fazendo baderna, esses cachorros. As pessoas têm medo quando eles pegam briga. Eu evito essa rua”.

Nas rádios, ouvintes reclamam quase diariamente da situação. Relatam casos de pessoas que por pouco não foram mordidas nas ruas. Comentam sobre acidentes envolvendo ciclistas e motociclistas perseguidos por cães. Quedas por tentativa de desvio também lideram nas reclamações.

Internautas chegaram a registrar imagens de cães deitados na frente de lojas em que há ar-condicionado. Devido a quentura ambiente, os animais procuram lugares frescos para se abrigarem.

A imagem abaixo ilustra o momento em que um aglomerado de cães tenta entrar no Banco do Brasil para “se refrescar”.

Quem também reparou no problema foi Nacelio Mesquita, microempresário que vendia hambúrgueres na praça da matriz, no Centro. Em 27 de dezembro de 2018, Bola, como é conhecido, postou em sua rede social Facebook um apelo à administração municipal. Na publicação, pede atenção dos governantes para a construção de um abrigo.


À entrevista, reforçou o pedido e afirmou que a causa precisa de mais incentivo. Pretende contribuir mobilizando a população: “penso em fazer tubos para depositar ração e alimentar os cães que aparecem na praça. Às 22h aqui lota. Pedirei aos moradores ajuda com a alimentação”. Com quase um ano desde o apelo nenhuma atitude foi tomada.

S.O.S Animais Abandonados

A Associação S.O.S Animais Abandonados de Morada Nova atua no município desde 2016. Membros da diretoria chegaram a procurar o poder público com a proposta de abrigo. A Ong não dispõe de sede própria. Tentou parceria com a administração municipal, mas se viu diante de um impasse. A prefeitura não poderia suprir as necessidades da sugestão de abrigo do grupo. “O ideal seria a Associação entrar como parceira, não o oposto”, expõe o presidente da S.O.S Animais Abandonados, Hyarlley Silva. Ele esclarece que a Associação não recebe a atenção que deveria por parte dos governantes morada-novenses e que a própria população se mostra indiferente. “Muitas pessoas apoiaram no início, mas foi apenas para mostrar nas redes sociais que estavam envolvidas em uma boa causa. Hoje, há poucos membros no grupo”. Hyarlley afirma que apesar das dificuldades a luta continua.

Força Tarefa Animal (FTA)

Outro projeto que vem ganhando espaço na causa é o Força Tarefa Animal (FTA), idealizado em 19 de abril deste ano (2019). Os jovens Cícero Carneiro Girão Terceiro e Giliard Sousa criaram grupo no WhatsApp para arrecadar ração e ajudar um amigo que abrigava cerca de 17 cães de rua. “O negócio foi tomando forma e ficando mais sério”, diz Giliard, “o grupo foi crescendo e os participantes contribuindo como podiam”. Atualmente com dois grupos ativos no aplicativo de mensagem e uma página no Facebook, os integrantes do FTA lideram atividades que visam o bem-estar dos animais abandonados no município.
Dezoito dos mais de duzentos membros dos grupos estão à frente das práticas que mobilizam àqueles que se solidarizam com a situação dos animais.

Não será abrigo

A prefeitura construiu um Centro de Acolhimento temporário para animais em estado de abandono ao lado da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), na CE-138. Não há previsão para o início de seu funcionamento. De acordo com a presidente do Instituto de Meio Ambiente de Morada Nova (IMAMN), Gleide Rabelo, a primeira medida de esclarecimento que a população deve ter é que o espaço não será um abrigo. “Não podemos agir de forma irresponsável sem que o município esteja regido por leis”, declarou na 1ª Audiência Pública para discussão e construção da política municipal de proteção e bem-estar animal de Morada Nova/CE, realizada na quarta-feira (13) de novembro.


Segundo Gleide, o IMAMN precisa ter o respaldo legal da lei a nível municipal. A Lei de Crimes Ambientais e o Código do Instituto não direcionam os trabalhos administrativos de maneira específica. É necessário ter base legal de atuação na área.

Durante a audiência pública, o coordenador estadual de proteção e serviço animal da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Marcel Girão, palestrou sobre o bem-estar dos animais destacando defesa, humanização, maus tratos, princípios de liberdade, crimes e controle ambientais, fiscalização e educação.

Uma dinâmica foi realizada em grupo para apontar problemas e soluções da causa. Os participantes apresentaram suas propostas aos representantes. As mais viáveis devem ser aderidas as políticas de controle do Centro de Apoio. Em debate, a prefeitura reforçou que é necessário a união de todos para solucionar a problemática.

O evento também contou com a presença da secretária de Articulação Institucional, Ana Cristina; veterinário da secretaria de saúde do município, Douglas Carpegiany; presidente da CDL, Junior Girão; representando a Câmara dos Vereadores, o vereador Ronald Santos; presidente do Instituto de Previdência dos Servidores Municipais de Morada Nova (IPREMN), Vinícios Saraiva; presidente da Autarquia Municipal de Trânsito (AMT), Talvane Raulino; diretor administrativo do Hospital Regional, Kennedy Lima; ex-vereador, Renato Mourão; vereador Rafael Rabelo; presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Ambiental (CODEMA), Rosangela Barbosa; representante da Associação dos Usuários da Água do Distrito do Perímetro Morada Nova (AUDIPIM), Sales Almeida; membros da S.0.S Animais Abandonados e Força Tarefa Animal, professores e alunos do Colégio Estadual Maria Emília Rabelo (CEMER) e comunidade.

 

 

Fonte: Tv jaguar / 7 Pautas

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