TV Jaguar

Postado em 03/06/2017 às 09:30:00

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Festa do Divino Espírito Santo de Morada Nova sofre genocídio cultural e religioso

Festa do Divino Espírito Santo de Morada Nova sofre genocídio cultural e religioso
Foto: Ilustrativa (Blog Benedito)

Há mais de 180 anos ecoa o cântico ao Divino Espírito Santo nessas terras moradanovenses, assim como ecoa em terras mineiras, goianas, paulistas e lusitanas. Sua origem remonta aos portugueses que disseminaram essa crença por onde passaram. E Morada Nova criada por descendentes portugueses, herdou essa devoção ao Divino. Foi nesse sertão de ares quentes e povo resistente que se manifestou esse catolicismo secular e popular praticado por povos de diferentes regiões do país.

Mesmo antes de ser licenciada em 1831 e recebida a bênção da pedra fundamental para construção da capela no ano de 1833, o povo dessa cidade já cultivava a crença de que eram abençoados pelo Divino Espírito Santo, que protegia homens, mulheres, crianças, jovens e idosos que aqui residiam com suas famílias. Assim como cultivavam as terras para se alimentarem, cultivavam também os sete dons do Espirito Santo, e a crença de que o Divino traria dias melhores, com fartura e prosperidade. As promessas feitas e alcançadas eram agradecidas de joelhos no altar mor da Matriz, que representava uma obra de arte de estilo barroco, e que nos anos 60 do século XX tombou, sendo destruído pelo Pe. Sebastião Marleno Alexandre. A população, subtraída do seu patrimônio cultural e religioso, ainda relembra tal fato com descontentamento e lamúrias. Mas permanece sua devoção e o costume de, na época das festividades, vestirem-se de branco e vermelho, debulhando o terço e entoando os benditos, aliviando a dor e o sofrimento, deixando fluir o sentimento de gratidão pelas bênçãos do Divino.

A história da religiosidade popular de Morada Nova se confunde com a própria história do Município, que chegou a ser denominado de Vila do Espírito Santo em 1876, quando de sua emancipação política. E essa tradição deveu-se à devoção de pessoas que fizeram de suas vidas uma dedicação ao Padroeiro e à Paróquia. Os nove dias de novenário, que só sobreviveu na memória das gerações passadas e presentes, carregam uma simbologia de expressão religiosa peculiar, única nessa cidade, e que lamentamos não mais existir. Esse ritual simples e enriquecido pela alma dos devotos, tinha a participação expressiva da comunidade que se deslocava de lugares distantes para vivenciarem as novenas ao seu padroeiro e protetor. Os diferentes traços tornava-se uma só voz, que rezavam, cantavam os benditos e o Hino animados pela centenária Banda de Música Expedito Raulino. Essa contabilizaria cerca de 90 anos de presença marcante na Festa do Divino Espírito, pois foi nos anos 20 do século vinte, por volta de 1927 que o Maestro Coutinho começou a contribuir com a harmonia musical, recebendo os fiéis na entrada da Matriz, e durante o leilão. Muitas pessoas que contribuíram com a Festa do Divino têm rostos e nomes, e cada uma com suas expressões peculiares deixaram um legado para a sociedade, que persiste na continuidade à devoção ao Divino Espírito Santo. Quem não se lembra do andor enfeitado que percorria as ruas da cidade arrastando multidões? Dos enfeites do altar da Igreja que encantava os olhos curiosos e atentos da população? Das mulheres que anotavam as intenções da missa? Do leilão cujas prendas eram doadas por pessoas de diferentes raças e classes sociais, que variava de pratos típicos à animais abatidos ou vivos? As prendas chegavam dos mais distantes recôncavos desse sertão e das várzeas. Essas lembranças e outras que estão perdidas no anonimato vivem no inconsciente coletivo e na memória dos paroquianos, e que hoje são elos entre o passado e o presente.

Mas toda essa tradição encontra-se ameaça, pois de tempos em tempos, em nomes de inovações, são praticadas, de forma sutil ou grotesca, as “mudanças necessárias”. E este ano tivemos mais, como a destruição das laterais do altar e a construção de algo mais moderno, bonito, mas que não carrega a beleza original que foi erigida no início do século XIX. Contudo, a mudança também ocorreu para além de estruturas físicas e materiais, mas lamentavelmente no nome que carrega esse catolicismo popular e secular. De Festa do Divino Espírito Santo passou-se a Festa de Pentecoste. A divindade do Divino Espírito Santo mudou? Mudar uma tradição que já se aproxima do seu bicentenário é um ato de genocídio cultural e religioso, que acontece com a destruição de uma cultura e uma tradição de um povo.

E, podemos assistir “bestializados” esses fenômenos que estão acontecendo com a Festa do Divino Espírito Santo? Destruição material e imaterial? Extinção da participação da Banda de Música nos festejos? Mudança do nome da festa? As gerações vindouras não conhecerão a tradição e a cultura praticadas pelos seus antepassados. São as tradições populares, religiosas e culturais, que permitem estabelecer um elo entre o passado e o presente, e dá sentido à existência humana na terra. A identidade do povo moradanovense é um sentimento de pertencimento às tradições locais, e a Festa do Divino Espírito Santo é um legado impar, e peculiar à este povo, que defende sua territorialidade material e imaterial. Outrossim, é preciso fomentar os elementos que alimentam a nossa fé, trazendo a volta das antigas novenas, da sintonia da Banda de Música para entoar nosso canto e acalentar nosso espírito, e do nome histórico de Festa do Divino Espírito Santo!


Profª. Drª. Maria Sângela de Sousa Santos Silva
Doutora em História/UNICAMP
Professora SEDUC/CEMER/MN

 

 

Fonte: TV Jaguar

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